quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ferris Bueller's Day Off (Curtindo a vida adoidado) 1986 Dir. John Hughes



Curtindo a vida adoidado
John Hughes

[Dublagem Original]



“Ferris Bueller's Day Off” ou “Curtindo a vida Adoidado” é um clássico que não precisa de apresentações. Essa obra máxima do diretor John Hughes é totalmente atemporal, plenamente viva e continua representando com muito vigor todo simbolismo que significar ser jovem. A razão é simples. O filme não representa apenas uma época, mas sim um estado de transição do individuo para fase adulta, as escolhas que irá fazer diante de uma sociedade que, cada vez mais, exige que você seja o melhor.


“Curtindo a vida Adoidado” não é simplesmente um clássico por ter feito parte da minha adolescência ou da sua, caso você tenha nascido na década de 80. O poder atemporal da obra não está somente em nossa saudosa memória, mas na leitura que John Hughes faz sobre a adolescência. Não é a toa que o diretor é detentor do título "o mestre dos filmes adolescentes”. Digo mais, Hughes é um dos poucos que soube captar as transformações desse período tão intenso e adverso. Seus filmes retratam as frustrações, alegrias, reflexões que tornam esse período da vida de qualquer individuo uma montanha russa com enormes emoções e incógnitas de igual tamanho. No entanto a genialidade está em estimular a reflexão entre o “florescer nebuloso de Apolo” contrapondo com as exigências econômicas e culturas que definem o ser no meio em que ele vive. Hughes captou com maestria a essência dos anos 80 e 90, principio da sociedade de consumo, época em que a juventude não tinha voz. Seus filmes são uma narrativa direta com a necessidade de uma identidade pessoal mediante a uma sociedade aonde os valores de SER estão relacionados com TER. 


Após 27 anos “Curtindo a vida Adoidado” continua com a mesma essência como se estivesse sido finalizado ontem. Ferris Bueller ainda faz as mesmas indagações sobre como se deve viver à vida. Ser adolescente não mudou muito coisa. A não ser a dificuldade de ter uma identidade pessoal. Afinal por mais que a tecnologia agilize nossa comunicação, cada vez mais estamos distantes do outro e de nós mesmos. Cada vez menos sabemos interagir com o próximo. Vivemos uma idéia sintética sobre o que significa se relacionar humanamente. A felicidade se tornou uma espécie de realização pessoal pré-moldada cada vez mais ligada com o status social e a condição financeira. Isso porque deixamos de ser meros consumidores e nos tornamos produtos. As relações humanas são regidas com os mesmos parâmetros das negociações mercantilistas. Sejam relações de afetividade intima ou de amizade, todas as posturas convergem para uma análise custo/beneficio em relação ao outro. Cada vez mais sabemos a importância das coisas, de uma carreira bem sucedida, de uma casa mobiliada, de um casamento cristão. Pouco sabemos sobre a simplicidade de viver, daquilo que nos traz paz de espírito.


Essa filosofia sobre a vida contemporânea me fez lembrar outro filme sensacional: “American Beauty (Beleza Americana, 1999)” do diretor Sam Mendes, quando a personagem Carolyn Burnham (interpretada por Annette Bening), corretora de imóveis, diz ao marido: “Como sabe, meu trabalho é vender uma imagem e tenho que viver esta imagem. Faça-me um favor. Pareça feliz.”  É exatamente o que vivemos. Uma constante busca para tentar parecer ser feliz. 

É muito bizarro perceber que “parecer ser feliz” é mais importante do que ser de fato feliz. Talvez seja mais cômodo, pois a felicidade requer transformações no caráter, na postura individualista que vivemos. Postura tão egocêntrica que sempre posiciona o outro como uma ameaça constante. Criamos estereótipos diversos construindo uma redoma, limitando o viver. Ferris Bueller, personagem irreverente criado por John Hughes, joga constantemente essa idéia bem em nossa cara. O personagem é uma prova que não precisa ser rico para ser popular, para ver a beleza da vida como ela realmente é, para ser feliz consigo mesmo. Basta deixarmos todas as ideologias de felicidade de lado e se permitir viver. Uma frase que gosto muito e reflete essa idéia é quando Bueller olha para câmera, falando diretamente conosco, dando aquela sensação de cumplicidade, e diz: “Não apoio o fascismo, ou qualquer outro “ismo”. Em minha opinião, os “ismos” não prestam. Não se deve acreditar neles, mas sim em nós mesmo.”


SAVE FERRIS!
A leitura de um clássico


A história se desenvolve na cidade norte-americana de Chicago no dia 5 de junho de 1985. Cidade que John Hughes passou boa parte de sua adolescência.  Nela vive Ferris Bueller, um jovem aluno do último ano do colegial que pretende matar um dia de aula, pois como o próprio diz “A vida passa muito depressa. Se não paramos para curti-la de vez em quando, ela passa e você nem vê!”. 

Na verdade essa frase não remete apenas ao dia ensolarado que o personagem deseja cabular, mas sim, uma afirmação diante das exigências que a vida nos traz. Bueller está diante do último ano de colegial, após isso, os amigos não irão se encontrar com tanta freqüência, exceto raras exceções nos finais de semanas. Muitos irão cursar faculdades, conhecer novas pessoas. Outros irão trabalhar ou mudar de cidade.



Surge um novo florescer. A responsabilidade em ser alguém, feliz e realizado com suas escolhas. Essa felicidade na sociedade de Ferris Bueller está ligada não somente a realização existencial do ser. Mas sim, e principalmente, a realização e afirmação de uma vida estável financeira. As exigências virão por duas vertentes, seus pais e a sociedade. E claro, não esta estabelecido nessa felicidade a realização pessoal, a satisfação consigo mesmo, a realização de fazer o que realmente gosta e o prazer da ociosidade criativa em desfrutar momentos de descoberta. Por isso a afirmação: “(...) Se não paramos para curti-la de vez em quando, ela passa e você nem vê!”. 

Mas Bueller não  irá matar um dia de aula qualquer, será um dia incomum. O dia que será aplicada uma prova sobre o socialismo europeu. O comentário que o personagem é muito engraçado e reflete exatamente os ideais da sociedade contemporânea. 

"Eu só queria saber qual é a razão desse teste. Eu não sou europeu e nem pretendo me tornar europeu. Por isso nem me interessa se eles são socialistas ou não. Eles poderiam ser fascistas, anarquistas, mesmo assim não iria mudar o fato de eu não ter um carro."

Sociedade imperativa do mundo das coisas. Onde toda realização pessoal e identidade social está diretamente ligada às coisas que possuímos. E assim ele conclui:

“Não que eu concorde com o fascismo. Não apoio o fascismo, ou qualquer outro “ismo”. Em minha opinião, os “ismos” não prestam. Não se deve acreditar neles, mas sim em nós mesmo. Eu concordo com Jhonn Lenonn: ‘Não acredito nos Beatles, acredito apenas em mim’. Essa frase é boa. Afinal de contas ele que era um máximo. Eu também gostaria de ser um máximo e não me preocupar com as pessoas"

Ferriz faz todas essas reflexões olhando para câmera. É uma espécie de cumplicidade com o telespectador. Essa decisão, olhar para o telespectador, foi uma idéia do próprio Hughes, pois as atitudes do personagem, tirando toda a narrativa por trás de suas intenções, soariam como arrogância, principalmente devido à forma como ele “se aproveita” de seus amigos. Essa conotação se tornaria mais atenuante se não houvesse um contato direto com o publico. O contato demonstra que Ferris está para além do filme. Ele está ao nosso lado conversando sobre a vida, sobre o que esperar dela e o que deve ser feito diante das frustrações. Como se não fossemos “vitimados” por esse estilo de vida. O dialogo direto remete a uma cumplicidade para com a fatalidade dos outros personagens. Colocando nós, telespectadores, além dessas fatalidades.


Isso é tão engraçado, quase um fato, após os créditos finais Ferris Bueller retorna, olha para a câmera (para nós) e diz: “Vocês ainda estão aí? Vão embora, desliguem a TV. O filme acabou!”. Ou seja, Bueller está além do personagem, ele é uma espécie de consciência em cumplicidade. Ele não diz o que devemos fazer da própria vida, pois fica a entender, sob falsa impressão que, “sabemos curtir a vida adoidado igual tal Ferris Bueller”, ou seja, pelo menos temos consciência da tolice que os outros cometem com a própria vida. Nós somos apenas cúmplice de uma aventura. Cúmplices da vida de seus amigos. Jeanie Bueller (Jennifer Grey) namorada de Bueller e seu melhor amigo Cameron Frye (Alan Ruck). 

Veja Cameron, sujeito inseguro, nascido em uma família conversadora com pais que se odeiam. Rimos da fatalidade de Cameron, pois nos identificamos com Ferris Bueller. Jamais paramos para pensar que o amigo inseguro ou a namorada do cara legal são reflexos de nossas escolhas e postura. 

Se percebermos “Curtindo a vida adoidado” não trata somente da necessidade de Ferris Bueller em matar aula, pois para ele a vida vai muito bem, obrigado! Tudo sempre dá certo. Um trecho do filme em evidencia isso é quando a namorada de Bueller pergunta: “Você já sabia o que fazer quando levantou da cama, não é?”. E de fato sabia! Vocês devem recordar da cena clássica, o desfile de rua. Nesta cena Bueller faz todos dançarem e cantar ao som e desempenho de “Twist and Shout” dos Beatles. Antes de fazer todos dançarem ele canta “Danke Schoen” do Wayne Newton. Pois bem, os mais atentos irão lembrar que “Danke Schoen” é música que ele ensaiava no inicio do filme enquanto tomava banho. Outro detalhe que demonstra que tudo já estava programado é o fato das moças do carro alegórico não estranharem a presença de Ferris Bueller, ao contrário da organização que, inquietamente, revisava a lista de apresentações. Bueller sempre soube o que fazer e jogar como se soubéssemos o que fazemos de nossas vidas é uma forma do personagem exemplificar nossos erros e frustrações através das aventuras e desventuras dos outros personagens do filme.


Portanto Bueller não está matando aula a seu bel-prazer. Ele tem consciência da atmosfera em que vive sua namorada e seu melhor amigo. E quer deixar para ambos, não apenas uma lição de vida, mas um dia para ser lembrado. A lição de vida, de fato, é para nós, telespectadores. No final quando ele pede para desligarmos a TV, pois o filme acabou, ele  está simplesmente dizendo “Vá viver sua vida, você sabe o que fazer agora”. 

E por que continuamos até o final? Porque acreditamos, inconscientemente, que existe um roteiro para uma vida feliz. Porém a felicidade é tão individual quanto nossos desejos sexuais. Ferris Bueller é a nossa consciência adormecida que se expressa cara a cara utilizando seus amigos como ilustração. Afinal é mais fácil tomar nota dos erros observando os obstáculos alheios aos seus. Quando sentimos pena de Cameron por viver em uma família desajustada, refletimos, inconscientemente, sobre as amarras familiares que vivemos em nosso lar. Mas como temos Ferris Bueller ao nosso lado, rimos de tais observações, não em igualdade com as dificuldades de Cameron. Compadecemos de sua aflição e desejando sua vitória. Mas nossa postura é de curtição, igual à Ferris Bueller, pois assim desejamos ser. Por fim Buller salva o seu amigo de uma vida extremamente passiva e nos deixa o conselho de como não se deve viver.


OS FILMES DE JOHN HUGHES

Os anos 80 e 90 não seriam o mesmo sem os filmes de John Hughes. Os quatro primeiros filmes que dirigiu e escreveu, Gatinhas & Gatões (Sixteen Candles), O Clube dos Cinco (The Breakfast Club), Mulher Nota 1000 (Weird Science) e Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off), somado a A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink, que apenas escreveu, a direção foi de Howard Deutch), são verdadeiros reflexos de uma geração, e principalmente, um estudo fiel sobre as transformações da adolescência para a fase adulta. 

Por mais incrível que pareça “Curtindo a vida adoidado” não repercutiu como esperado. John Hughes ouviu sérias críticas ao filme. Em seu lançamento havia uma forte influência do governo conservador de Ronald Reagan. Todos viviam uma onda neoliberal. Com isso alguns críticos enxergarem neste filme uma propaganda de tais valores.



“Ferris Bueller’s Day Off” foi o ultimo grande trabalho Hughes. Após isso, o diretor se mudou de Hollywood, retornando para Chicago, vivendo sua vida em reclusão. Infelizmente ele morreu em 2009, aos 59 anos, ataque cardíaco. 

Em 2009 a HBO produziu um documentário sobre a vida e obra do diretor. O título do documentário é “Don’t You Forget About Me”, título da canção da banda Simples Minds, trilha sonora de seu primeiro grande sucesso “O Clube dos Cinco (The Breakfast Club)”, e claro, a música é praticamente um hino dos anos 80.


CURIOSIDADES
Coisas que talvez você não saiba


O ator Matthew Broderick se consagrou no papel de Ferris Bueller, porém Jhonny Depp havia feito o teste e não passou.  John Hughes optou Broderick, pois ele já havia feito um teste para o filme “The Breakfast Club (clube dos cincos)”, mesmo não se enquandrando em nenhum personagem, Hughes gostou do carisma do jovem ator.


O ator Allan Ruck, que interpretou o papel do amigo Cameron, foi escalado somente depois que Emilio Estevez recusou o papel. A atuação de Ruck, infelizmente não lhe rendeu outros papéis, ele acabou optando por trabalhar nas lojas da Sears (Uma espécie de Lojas Americanas aqui no Brasil).

Durante as filmagens Mia Sara disse ter se apaixonado por Broderick, mas que este "sabiamente" a recusara. Na época ele namorava com outra integrante do set, ninguém menos do que Jennifer Grey, atriz que interpretou a irmã de Ferris, tendo inclusive ficado noivos.


O canal NBC transformou o filme em um seriado em 1990. Ferris Bueller, a série. Quem interpretava o personagem Bueller para a série era o ator Charlie Schlatter. O Sitcom não obteve muito sucesso, parando no 13º episódio.  Os críticos diziam que Ferris era tão cínico nos episódio que chegava a dar desprezo.

John Hughes cogitou a continuação. Ferris Bueller mataria um dia na faculdade ou no trabalho, passando por aventuras similares do primeiro filme. A idéia não foi adiante, pois Hughes e o seu roteirista não encontraram argumentos que realmente valessem para produzir uma continuação. (Ainda bem!) Porém a idéia sugerida na época foi reutilizada para gravar um teaser de uma propaganda da empresa automobilística japonesa Honda. Ficou curioso? Veja o video [AQUI]


EDIÇÃO ESPECIAL
As narrativas em primeira pessoa de Ferris Bueller

Depois de toda essa contextualização filosófica sobre Ferris Bueller se manifestando como nossa consciência em diálogos em primeira pessoa, resolvi fazer uma edição apenas desses trechos. Confira e reflita sobre o assunto!


FICHA TÉCNICA


Gênero: Comédia, Drama
Origem: EUA
Ano: 1986
Atores principais: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Charlie Sheen
Minha nota: 10,0


DOWNLOAD

Download do filme com dublagem original 
Tamanho: 705.8MB

 

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